sexta-feira, 7 de março de 2014

Do Luxo Ao Lixo

Rio – Desde o início das festas de carnaval, os Garis entraram em greve, no Rio de Janeiro. Somam-se cerca de 10 dias de paralisação. São muitos os ruídos sobre o número de trabalhadores parados e pouco se sabe sobre suas reivindicações. As imagens que marcam a memória são de lixos nas ruas, escoltas policiais em torno dos que ainda trabalham, e os percentuais de 9% de reajuste salarial, que o governo oferece, e 40% , que a categoria reivindica.
Segundo o Comando de Greve dos Garis, são cerca de 70% da categoria parada, de 15 mil trabalhadores. A prefeitura diz que são apenas 300 garis em greve. A pauta de reivindicação lista desde direito à folga, Ticket alimentação, percentual de hora extra, até plano dentário e auxílio creche. O piso salarial reinvindicado é de R$1.200, totalizando R$1.500. Além disso, o movimento não abre mão da anistia dos 300 trabalhadores demitidos, desde o início da paralisação.
Os Garis marcaram o carnaval do Rio de Janeiro, dos tempos de Megaeventos. Nas ruas que reuniram milhares de foliões, acumulavam-se lixos e fantasias. O cenário da cidade maravilhosa teve suas coxias e bastidores expostos. E o que se revelou é que, por trás de todo espetáculo, tem pessoas reais, sustentando a festa, com sua energia diária. Talvez esteja aí a magia da Greve dos Garis.
Quando convivemos com o lixo, entramos em contato com o sujo, com o mal cheiro, os riscos à saúde e logo reivindicamos para nós, usuários dos serviços, a tal “qualidade de vida”. Mas sempre quando falamos em viver bem, pensamos em saúde, alimentação, lazer e parece que esquecemos do tempo em que nos dedicamos ao trabalho como tempo importante para se viver melhor. Qualidade de vida, portanto, passa também por dignidade no trabalho, realização pessoal no trabalho, saúde no trabalho. Parece ser isto o que os Garis reivindicam.
A palavra trabalho tem origem em um instrumento de tortura , tripalium, utilizado contra escravos, no período Romano. Alguns vão questionar a relação entre essas duas palavras e defender o trabalho como dignificante ou como aquilo que une os homens à natureza. Mas, em que medida podemos entender o trabalho como fárduo, castigo ou prazer, realização?
Os Garis, ao pararem suas atividades, nos provocam esses questionamentos. Derruba fachadas e expõe os bastidores. Marca o encontro entre o luxo e o lixo, entre a riqueza e a pobreza, a vida e o trabalho.


Artigo Produzido por Grupo de Pesquisa GMARX / Professora Clarisse Gurgel
Postado por matheus ribs às 10:48 PM

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